Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Autoritarismo e Democracia

ImageO autoritarismo e o défice de cultura democrática não são uma questão deste ou daquele partido. Por isso, entre a classe política angolana, praticamente todos têm uma origem ideológica autoritária. Uma crónica de João Melo.

O papel definidor e estruturante da crítica na edificação da democracia é óbvio. No entanto, em Angola, é preciso reafirmá-lo sistematicamente, até “naturalizá-lo”, pois ainda estamos numa fase de transição para a democracia.

Como tenho afirmado várias vezes em público, o autoritarismo é um traço horizontal da sociedade angolana (a rigor, começa em casa).
O autoritarismo angolano tem uma tripla origem: a cultura tradicional, de base rural e onde o individuo se deve submeter à comunidade; o colonial-fascismo português; e o modelo marxista-leninista adoptado nos primeiros 16 anos de independência. Daí resulta uma “salada autoritária” que é necessário desconstruir com realismo, inteligência e persistência.

Quer dizer, o autoritarismo e o défice de cultura democrática não é uma questão deste ou daquele partido. Por isso, entre a classe política nacional, praticamente todos têm uma origem ideológica (no mínimo, ou seja, para não falar da praxis) autoritária, quer de direita quer de esquerda. Pela parte que me cabe, não desminto nem escamoteio a minha matriz.

Assim sendo, o discurso da UNITA, por exemplo, segundo o qual a democracia angolana se deve à guerra que ela fez desde a independência é irredutivelmente contrariado pelo facto de, em 1992, não ter aceitado a sua derrota nas urnas e optado por retomar o conflito armado. Essa decisão demonstrou que a UNITA não lutava pela democracia, mas simplesmente pelo poder.

A retórica democrática de muitos partidos da “oposição civil”, como eram designados até 2002, também não é suficiente para ocultar o ranço autoritário que espreita por detrás da mesma. O negativismo sistemático, o vanguardismo e a arrogância política e intelectual aí estão para demonstrá-lo.

Até entre os líderes da chamada sociedade civil é possível identificar manifestações dessa falta de cultura democrática. Para dar apenas um exemplo, cito a declaração de uma activista social, perturbada com o recente resultado eleitoral, que afirmou que, agora, a sociedade civil deveria assumir o papel da oposição (SIC), como se os mais de cinco milhões de angolanos que votaram no MPLA pertencessem a qualquer sociedade “extra-terrestre”.
 
Dito isto, a conclusão só pode ser uma: a construção de uma sociedade genuinamente democrática em Angola implica, antes de mais nada, que todos os actores políticos e sociais tenham a humildade de reconhecer a sua origem político-ideológica.

 
publicado por saudacoesangolanas às 11:17
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